Ninguém: | Blogueiras: ah pq o algoritmo

Como já foi discutido nos textos anteriores, a cultura do algoritmo influencia diversas esferas do campo social. A privacidade, redes e a produção de conteúdo são áreas que se reinventam e atualizam diante dessa nova estrutura.

André Lemos, em Cibercultura como território recombinante (2006), aponta como se dão as novas relações comunicacionais na produção de informação. “Qualquer indivíduo pode produzir e publicar informação em tempo real, sob diversos formatos e modulações, adicionar e colaborar em rede com outros, reconfigurando a indústria cultural (“massiva”)”.

Se nesse princípio a cibercultura apontava a obtenção de informação com a ideia de uma curadoria própria do indivíduo entre mídias, no qual já existia o algoritmo, hoje, que a atuação do algoritmo se dá de forma mais integrada – possibilitada pela ampla coleta de dados – o algoritmo desponta como curador da informação.

É um momento de abundância informativa que nos leva a refletir sobre o conhecimento, sobre a formação do pensamento crítico. O especialista Neal Gabler (2011) afirma que “os indivíduos se tornaram grandes acumuladores de fatos e informações, mas já não conseguem desenvolver um pensamento crítico e profundo sobre um fato”.

E onde os memes ficam no meio de tudo isso?

O meme, texto que opera nesse espaço virtual, carrega um pacote de informações que dialogam com o viral e o atual. Qualquer um pode produzir um meme, é a liberação do polo do emissor e do canal, qualquer um produz e qualquer um posta. O poder do meme enquanto canal informativo e comunicador já é um consenso, até mesmo institucionalizado, como foi o exemplo do texto anterior, o “departameme”.

A questão é que o algoritmo curador atua no espaço da conexão, André Lemos (2006) afirma “Não basta emitir sem conectar, compartilhar […] É preciso emitir em rede, entrar em conexão com outros, produzir sinergias, trocar pedaços de informação, circular, distribuir”. Para ele essa lógica se enquadra em uma nova economia política “produção é liberação da emissão, e consumo é conexão, circulação, distribuição”. É o engajamento que gera dinheiro.

Então é o algoritmo curador – em suas diferentes plataformas – com a  ação na circulação do conteúdo que interfere no campo da produção; uma vez que é o atual e o viral que pautam e agendam as novas produções. Essa performance afeta diretamente o campo jornalístico, visto que se enquadra na sua lógica de trabalho, muito além, atinge o comunicador, que nesse contexto se mistura com qualquer um que tem um dispositivo tecnológico, faz um meme, e posta.

Social Chain é uma empresa britânica, agência global de marketing de redes sociais. O grupo começou com uma equipe de seis pessoas. Conhecidos como ‘fábrica de memes’, o serviço que eles oferecem é melhorar a imagem das marcas entre a geração digital, utilizando a linguagem deles, e a lógica de uso desse espaço virtual. Antes eles eram influenciadores solitários, produziam memes, e ainda era um serviço sem retorno financeiro. Se uniram através de um olheiro digital que convenceu investidores para o negócio demonstrando a influência deles, ao compartilhar um conteúdo com a mesma hashtag, em pouco tempo o assunto era o mais comentado nas redes. Hoje com duzentos funcionários, a empresa fatura em média 9 milhões de libras anualmente.

É a nova lógica da produção de conteúdo: entendimento da performatividade algorítmica e suas nuances de curadoria, a linguagem dos usuários – a linguagem da polegarzinha é meme?-, propaganda direcionada, possibilitada pela profunda coleta e análise de dados.

No Brasil um coletivo de produção de memes tem ganhado relevância no cenário midiático, é o Saquinho de Lixo. O grupo composto por nove pessoas atua numa lógica de produção específica. Produzem os memes, discutem em um grupo de Whatsapp seu possível sucesso viral e depois o postam em seu perfil do Instagram. Com 360 mil seguidores a magnitude de expressão dos seus memes alcançou outros espaços ao ser incorporado a exposição ‘À Nordeste’ no Sesc São Paulo neste ano.

Como os exemplos comprovam, os memes se incorporam a nova lógica de produção de conteúdo que tem como grande ator o algoritmo. No campo da produção de notícias o pesquisador Carlos Frederico de Brito d’Andrea no trabalho Em busca das redes sociotécnicas na redação de notícias por robôs (2017), aponta que já existem notícias sendo produzidas por repórteres-robôs – algoritmos, bancos de dados, computadores-.

Agora que os memes ocupam um espaço de relevância nas discussões atuais, seja na formação ou difusão de discursos e ideias pessoais, e até mesmo na comunicação estratégica institucional, será que há projetos para o desenvolvimento automatizado de memes? Seria algo do futuro a criação de algoritmos que interagem com o algoritmo das plataformas, entendendo os assuntos virais, relacionando-os com a intenção desejada – deboche, convencimento, propaganda? Será que esses memes já circulam entre nós e não sabemos? Mais informações link na bio.

Problemas modernos exigem soluções modernas

“Dispomos de mais opções do que nunca, porém perdemos a habilidade de realmente prestar atenção no que escolhemos”.

Yuval Noah Harari

Não os algoritmos. Esses estão bem atentos, captam cada busca, cada click e compartilhamento, abastecem um banco de dados criando perfis e especificando cada vez mais sua operacionalidade. É a era do big data. O processamento e análise de dados tem alcançado as mais diversas esferas culturais. A performatividade algorítmica tem influenciado no cenário da produção de conteúdo, os memes não ficaram fora disso.

“Departameme” é o nome dado pela mídia ao novo departamento do deputado federal Kim Kataguiri, segundo sua assessoria de comunicação o objetivo é transmitir o posicionamento e ideias do deputado através de memes publicados em suas redes sociais. Esse caso exemplifica uma nova compreensão de comunicação do mundo atual. Entender as redes sociais e como elas funcionam significa buscar entender o que é o algoritmo dessas diferentes plataformas e como ele estabelece a relevância e circulação do conteúdo.

E como entender os algoritmos? No texto Questões e apontamentos para o estudo de algoritmos das pesquisadoras Amanda Chevtchouk Jurno e Sílvia DalBen, elas comparam o algoritmo a uma caixa preta “Não temos acesso a todo seu conteúdo – e talvez esse acesso aos códigos não nos dissesse muito sobre a sua verdadeira natureza – mas conseguimos observar sua ação e os resultados dela”, ainda com o contraponto de que comparados a uma caixa preta “os algoritmos não são estáveis e tão pouco são previsíveis”.

Segundo Gillespie o algoritmo é colocado como sistema central do nosso ecossistema informacional, seus estudos debruçam sobre os algoritmos de relevância pública, àqueles dos mecanismos de busca, seus desdobramentos políticos; e aponta algumas de suas dimensões em seis passos, alguns são mais significativos para nossa reflexão sobre produção de conteúdo memético:

O primeiro deles é a Avaliação de relevância, quais os critérios utilizados pelos algoritmos para hierarquizar os nossas buscas? Esse é um critério de atuação opaco e uma escolha política. Pensando na produção memética, que tem forte ligação com o atual, aquilo que é apontado como assunto relevante e viral pelas diferentes redes sociais vai ser utilizado na produção dos memes, característica de sua linguagem intertextual. Por exemplo o posicionamento do Kim Kataguiri sobre a reforma da previdência utilizando o recente escândalo envolvendo o jogador de futebol Neymar – assunto que alcançou os trending topics no twitter-.

O meme foi compartilhado no Instagram, diferentes plataformas provocam diferentes performatividades, o que nos leva a outro apontamento do Gillespie o Entrelaçamento com a prática: como os usuários reconfiguram suas práticas para se adequar aos algoritmos dos quais dependem. Todas essas plataformas de mídias sociais como Instagram, Twitter e YouTube tem uma logica de recomendação personalizada ao usuário. São indicações de imagens, temas e vídeos que podem agradar baseado no seu próprio perfil de consumo e no estereótipo ao qual você se encaixa.

Essa indicação de gostos acaba tendo o poder de moldar comportamentos a partir do momento que o usuário passa a atuar sinalizando seus interesses. As consequências para essa questão podem parecer agradáveis entendendo que o usuário vê o que gosta. Mas é preciso entender que são esses mecanismos que reforçam as bolhas afetando campos de diálogo da sociedade; além de terem uma ação de homogeneização da identidade, empobrecimento da curiosidade cultural e do conhecimento enciclopédico.

Dificilmente os memes do Kataguiri chegaram àqueles usuários que não consomem em suas redes sociais conteúdos ligados a política, ao MBL; as bolhas ficam mais difíceis de serem infiltradas; mas ao mesmo tempo o entendimento da performatividade algorítmica do instagram pode possibilitar a comunicação estratégica do “departameme” que a questão da reforma da previdência chegue a bolha que consome o conteúdo ‘futebol’, ‘memes’, ‘Neymar’.

O  meme acima expõe a percepção do público sobre o artigo 13 que endurece as regras sobre copyright na União Europeia. VPN é um programa que permite a camuflagem da localização do usuário na utilização da internet; o meme indica a possibilidade de utilizar essa ferramenta para violar a lei de copyright se camuflando por uma localização de uma região que não utiliza esse artigo. Assim o meme aborda um tipo de comportamento das pessoas sobre um algoritmo de fiscalização e punição do cumprimento de uma lei.

“Quem está em melhor posição para se beneficiar sobre esse conhecimento”? Esse é o último ponto de Gillespie que vamos abordar: A produção de públicos calculados. A atuação algorítmica tratada neste tópico dá um passo além a ação de identificação de gostos e da hierarquização da busca; ele atua na sugestão da própria busca, moldando gostos, modificando a percepção que o público tem de si.

Talvez o usuário não se interesse -e não tenha indicado interesse- por política, nem futebol, nem Neymar e ainda assim o meme apareça na sua ferramenta “explorar”; e por estar na sua ferramenta personalizada é provocado no usuário a ideia de que isso realmente é do seu gosto.  Não se sabe dizer como essas indicações são decididas -caixa preta-, mas elas não são aleatórias. É a performatividade algorítmica agindo sobre o próprio algoritmo tendo percepções enviesadas sobre o público, moldando o público sobre essas percepções.

“De várias formas, os algoritmos continuam fora do nosso alcance e eles são projetados para continuar mesmo. Isso não quer dizer que não devemos aspirar a iluminar seu funcionamento e a seu impacto. Nós deveríamos. Mas talvez nós também precisemos nos preparar para nos depararmos, mais e mais, com associações inesperadas e indescritíveis que eles vão desenhar para nós.” GILLESPIE 2014

Estão em jogo relações de poder, disputas de discursos no espaço digital que é organizado pelo algoritmo. O meme texto próprio desse espaço participa desse jogo de ideias, tendo sua produção e circulação moldada pelo algoritmo ao mesmo tempo em que faz parte da sua linguagem expor e escrachar essas relações. Cabe aos usuários a responsabilidade de fazer escolhas conscientes, buscar garantias, e aos memes, bem, the zuera never ends.

Boa noite, meu agente do FBI

Os memes, assim como todas as outras interações constituídas na rede, devem ser analisados quanto ao papel que desempenham na relativização da privacidade e captura de dados dos usuários. Segundo Raquel Recuero, há um distanciamento dos atores nas redes digitais. Eles não são facilmente discerníveis. Tratamos então da representação desses atores, que é constituída por suas interações. Essas, por sua vez, são parte das percepções do universo que os rodeia, influenciadas por elas e por suas motivações particulares. Sendo os memes expressão do conhecimento que permeia os indivíduos, que outro mecanismo seria tão eficaz em manifestar informações sobre os atores sociais?

Os memes compartilhados pelos atores refletem suas crenças, conteúdos que lhes interessam, ideologia política, relações sociais, entre outros fragmentos de suas identidade que sugerem aspectos menos visíveis dessas preferências, como, por exemplo, se esse ator é mais suscetível a votar em tal candidato numa eleição presidencial ou se planeja ter uma família em breve.

As sociedades disciplinares e o modelo panóptico, descrito por Foucault em Vigiar e Punir, conhecem uma crise após a Segunda Guerra Mundial, fazendo com que os modelos de confinamento deem lugar a outros instrumentos do biopoder. A vigia das pessoas por uma máquina intimidadora e imponente deixa de explicar claramente os métodos utilizados pelo Capitalismo de Vigilância. Esse processo não é mais representado pelo dispositivo ótico a vista de todos, mas pelas modulações do comportamento dos indivíduos, que tornam-se  “dividuais”, divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou “bancos” (DELEUZE,1990).

Os memes, dessa forma, revelam características da personalidade dos atores, pequenas partes, frações de um todo.  Esse todo, entretanto, não é confinado, distribuído no espaço, ordenado no tempo. A comunicação memética, tão rápida, eficaz, divertida, é capaz de oferecer dados diversos sobre o usuário, que são captados pelas grandes empresas -vinculadas a muitas outras- onde os memes são publicados. Esse armazenamento de dados não exerce o controle no momento em que ocorre, mas sim no futuro, através da venda desses dados para outras empresas com os fins mais variados possíveis.

As bolhas sociais desempenham um papel significativo na segmentação do público e na filtragem do conteúdo bruto pelos algoritmos de acordo com certas preferências dos usuários. Ao compartilhar um meme sobre algo que nos identificamos, os algoritmos passam a mostrar mais sobre aquele determinado conteúdo. O filtro tem consequências negativas na medida em que as pessoas nem sempre estão cientes dessa filtragem e do modo como ocorre o processo de captura de dados e controle do comportamento.

Segundo Deleuze, “Os confinamentos são moldes, distintas moldagens, mas os controles são uma modulação, como uma moldagem auto-deformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto a outro.  O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua”. Essa nova forma de exercer controle se relaciona diretamente com a configuração das redes. O que se sabe sobre ator a partir de suas postagens é muito pouco, porém muito eficiente para exercer o controle. Além disso, o armazenamento de dados é constante, os memes se renovam a todo momento e cada vez mais são criadas diferentes páginas de memes com segmentação específica para cada perfil.

O QUE É GOLDEN SHOWER?

 

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É comum afirmar que, na contemporaneidade, as mídias sociais tem como fundamental característica a difusão massiva de mensagens. No entanto, segundo a teoria de Bruno Latour, a instrumentalização dessas plataforma enquanto mero objeto – meio – é improvável, dado que não é possível dissociar sujeito do objeto na ação.

André Lemos, no texto “Things (and people) are the tools of revolution”, pauta que as mídias sociais foram sujeito nas revoluções pelo Oriente Médio. As revoluções digitais fomentadas através do facebook, twitter e blogs não seriam possiveis sem a instrumentalização das plataformas.

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As redes, portanto, enquanto sujeitos, são elementares na construção de pensamentos e fundamentais, no atual contexto, para definições inerentes aos conflitos políticos que se instauram e viralizam através das mídias sociais.

Relacionando o poder de difusão das mídias à linguagem aplicada para a viralização de mensagens, é possível dar notoriedade à ação dos memes na viabilização de discussões através do humor.

Os memes simplificam a linguagem e são fundamentais para difundir ideias. Considerando a importância do meme, vale ressaltar, sobretudo, seu poder de ação para motivar e influenciar comportamentos da esfera política.

A exemplo, cabe citar a forma com que a imagem do atual presidente Jair Bolsonaro foi levantada a partir da difusão de imagens dele com óculos, que indicavam ar de superioridade, entre seus seguidores.

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Não houve, por parte do candidato à presidência, nenhum discurso passível de notoriedade frente às mídias tradicionais, nenhum diálogo com a sociedade por meio de debate mediado e nenhuma proposta de resolução dos atuais conflitos políticos apresentada diante dos candidatos. No entanto, sua candidatura foi efetiva devido ao compartilhamento massivo de sua imagem nas mídias sociais e da instrumentalização das plataformas para a veiculação de suas ideias.

Esse acontecimento remete à tese proposta por Latour que traz a unificação de sujeito e objeto enquanto “actantes”, isto é, atores humanos e não-humanos que desempenham um papel fundamental na resolução de conflitos políticos. No caso da candidatura de Jair, as redes foram atores fundamentais.

Partindo da análise de Latour, as redes de Jair Bolsonaro seriam sujeito de seu governo. Um exemplo recente referente à influência dos memes nas mídias do presidente da república é a enxurrada de respostas ao presidente em relação ao seu questionamento acerca de animes, após sua saudação à ascensão do imperador Naruhito ao trono japonês. O presidente chegou a reproduzir um meme feito pelos usuários em seu twitter.

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Os memes têm sido muito utilizados para difundir conhecimento de causas políticas – a exemplo da luta por visibilidade das pautas identitárias. Seu poder viral torna viável que a informação atinja diversas parcelas da sociedade e torna possível a abertura de diálogo através de uma linguagem que foge do academicismo.

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Com isso, é possível afirmar, segundo Latour, que os memes não são apenas o meio, mas, assim como as redes, a mídia e os humanos, são actantes do conflito, visto que são fundamentais para que sejam desempenhadas ações, como o exemplo da influência das redes nas revoluções orientais.

 

Memes, nunca te critiquei: é verdade esse bilete

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Até pouco tempo atrás, a comunicação de grande alcance só podia ser exercida pelas grandes mídias, que atingiam de modo quase homogêneo o público a que se voltava. Televisão, rádio, jornal, cinema. Uma comunicação feita por poucos para muitos, de modo praticamente unilateral.

O advento da internet fez com que o receptor assumisse também o papel de emissor e passasse a compartilhar ideias, opiniões, satisfações e pensamentos em proporções mundiais, talvez universais. Com a configuração em redes, os novos modos de comunicação que surgiram foram naturalmente ganhando seu espaço e se estabelecendo como mentalidade social. É o caso dos memes.

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Em “Cibercultura como território recombinante”, André Lemos define bem a cultura digital ao estabelecer três princípios básicos de sua formatação: a liberação do polo de emissão, o princípio de conexão em rede e a reconfiguração sociocultural a partir de novas práticas produtivas e recombinantes. O primeiro princípio expõe o caráter libertador da internet no que tange a expansão dos agentes emissores de informação. Caráter esse que remete ao intuito inicial da internet de ser um espaço livre e democrático de compartilhamento de informações.

A segunda lei foi discorrida no segundo texto do blog: “Só observando esses memes que você copia do Twitter e joga no Facebook”, que fala sobre a forma como os memes atuam nas diferentes redes interconectadas. Já a terceira lei indica perfeitamente a capacidade dos memes de agir de modo alternativo aos diferentes momentos sociais, cultura de origem e ideologias de criação.

Segundo Pierre Lévy, “o virtual é o que existe em potência e não em ato”, é o que se atualiza a todo momento e está sempre sujeito a transformações. Essa é uma das principais características dos memes: a capacidade infinita de adaptações, releituras e reconfigurações. De acordo com as diferentes situações, os memes servem como formas de expressão maleáveis, expostas a modificações em sua estrutura ou em suas linhas ideológicas. Eles recebem novas informações e vão evoluindo de modo ostensivo, se expandindo pelo mundo e ganhando novas configurações.

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Porém, como forças comunicacionais virtuais, ao mesmo tempo em que rompem com estruturas dominantes, os memes também acabam fazendo a manutenção de bases conservadoras e de conceitos contraproducentes. Isso ocorre porque sua forte característica de reprodução e compartilhamento esbarra na formatação de bolhas de conteúdo. Desse modo, as ideologias que estão por trás dos memes são por vezes apenas confirmadas e não confrontadas por novas ideias.

Um dos principais responsáveis por essa limitação são os algoritmos das redes sociais, que estabelecem o que o usuário verá na plataforma de acordo com os interesses demonstrados pelo próprio. Se a pessoa curte postagens sobre veganismo, é quase impossível que um meme que vá contra algum aspecto desse modo de vida apareça para ela. Assim, o caráter livre, multilateral e democrático da rede começa a ser reduzido pelo controle de dados e a capacidade de comunicação aberta, questionadora e construtiva vai perdendo força.

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Com isso, se faz necessário criar linhas de fuga, ou desterritorializar. Para Deleuze, a territorialização é o estabelecimento de elementos de controle, portanto desterritorializar consiste em modos de contornar esse domínio. Mas como criar essas linhas de fuga para o mundo virtual?

Por possuir algoritmos, vigilância e controle, o virtual se configura como um território. De acordo com  André Lemos, um território recombinante. Toda cultura é uma combinação e recombinação de diferentes elementos, a cultura digital não é diferente. O meme é um formato de comunicação composto de diferentes fundamentos, que elenca informações generalizadas, acontecimentos atuais, referências históricas, sociais e culturais com a liberdade de expressão de cada um. André Lemos fala que a diferença entre a recombinação da cultura digital para a recombinação de outras culturas é “a forma, a velocidade e o alcance global desse movimento”.

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É isso que faz a força dos memes praticamente imparável. Mesmo com o controle de dados, a velocidade, o alcance e o formato extraordinariamente maleável fazem com que os memes tenham quase a desenvoltura de um líquido, ao se adaptar a quaisquer circunstâncias e driblar inúmeros obstáculos. Os memes são de certo modo mais uma resistência à tentativa de imperializar a internet do que uma ferramenta de estruturas opressoras. Eles saem de qualquer lugar, podem ser feitos por qualquer pessoa, conter qualquer mensagem e ser compartilhados em quaisquer plataformas.

Sempre vai haver forças para criar barreiras, limites e controle nas redes, mas a internet fornece, por natureza, os meios necessários para driblar o controle massivo e exercer até certo ponto a comunicação democrática e multilateral. Os memes estão aí para isso.

 

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Só observando esses memes que você copia do Twitter e joga no Facebook

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Entende-se como rede uma estrutura que demanda um padrão específico. Capaz de promover trocas e compartilhamentos de serviços e recursos, numa verdadeira malha de informações e conexões, como pontes que interagem e interligam algo a exatamente qualquer coisa. Em cada rede, destaca-se um tipo de comunicação, seja ela de computadores ou social digital. Cada uma definida por suas especificidades, métodos de conexão e relações funcionais.

Uma vez bem estabelecida, uma rede comunicacional desenvolve performance e formas de atuação particulares que, em seus espaços virtuais, funcionam a partir de moedas sociais distintas. Dessa forma, também se dá o processo de criação, identificação e interpretação de memes em diferentes redes sociais digitais. Segundo a pesquisa realizada no ano passado pelo Pew Research Center (https://www.pewinternet.org/2018/05/31/teens-social-media-technology-2018/), o Instagram é a rede social mais utilizada pelos jovens, que a cada dia mais estão deixando o Facebook, Tumblr e o Twitter.

No entanto, no que tange ao compartilhamento desses memes, o Twitter segue sendo a principal matriz de criação dos virais. Uma vez identificada a sua potência, os prints partem em direção às demais redes, onde ganham repercussão infinitamente maior, devido ao alcance de usuários.

As redes sociais são diferentes entre si, não apenas no seu objetivo e faixa etária de usuários, como nas abordagens de publicações, formas de interação, rolagem de postagens e linguagem. É claro que existem semelhanças entre elas, como o fato de que todas as redes são um espaço para usuários e empresas interagirem, compartilharem ideias e histórias. O que muda é a forma como isso é feito em cada rede social:

    • Facebook: uma rede social que está deixando de ser utilizada por jovens, produz pouco conteúdo e, normalmente tem apenas reprodução de memes de outras plataformas. Às vezes riscados em cima para se adequarem à uma nova situação, mas normalmente nada autoral.

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    • Twitter: os memes costumam ser importados do pandlr.

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    • Whatsapp: predomínio de memes machistas e com cunho conservador. Há também a nova vertente dos stickers, que muitas vezes são memes de outras redes sociais sendo reaproveitados.
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  • Tumblr: costumam pegar o formato de um meme e adaptar a um gosto pessoal, como de bandas, filmes ou seriados. Uma adaptação, não a formação de um meme original em si.
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Em “Paradoxos da Teleinformática”, Weissberg cita as diferentes recepções que a série americana Dallas (1978) provocava em cada país que era televisionada, conforme os diferentes filtros locais. Cada cultura, inserida em seu ecossistema particular, interpreta e reage de acordo com seus filtros locais. Da mesma forma que os memes também atuam nas diferentes redes, muitas vezes ganhando formatos diferentes, passando por processos de edição brusca e sendo completamente deslocados do primeiro contexto.

Em seus estudos, o autor alega que as coletividades territoriais encontram na internet um meio de reforçar seus laços, de aumentar a intensidade de seus encontros reais, misturando onipresença física a pluripresença mediatizada. Quais os vínculos entre os participantes de uma mesma rede? Segundo Weissberg, elas não só contrapõem presença e distância, mas integram os dois.

No entanto, um exemplo elucidativo é apropriação do meme da vilã Nazaré Tedesco da novela “Senhora do Destino”. Compartilhada durante anos por usuários brasileiros, numa sequência de fotos em que a personagem em questão aparece confusa com fórmulas de matemática como se estivesse tentando desvendar o resultado, de tão compartilhado, alcançou também o público estrangeiro. A partir daí, sem qualquer noção de contexto original, ganhou uma outra perspectiva. Nesse caso específico, a rede possibilitou uma ressignificação do meme original, quebrando a noção do vínculo territorial.

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Meme?? Búzios?? Minha arte???

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O meme é uma parte integral da comunicação em redes sociais, mas seu surgimento é anterior à popularização da internet. A origem do termo vem do livro O Gene Egoísta, de 1976, do autor Richard Dawkins. Ele queria um termo para definir algo que é análogo ao gene na genética só que para a memória, a sua unidade mínima; essencial para a replicação de informação de cérebro para cérebro, uma unidade de evolução cultural que tem o potencial de se propagar.

“Precisamos de um nome para o novo replicador, um substantivo que transmita a idéia de uma unidade de transmissão cultural, ou uma unidade de imitação. ‘Mimeme’ provém de uma raiz grega adequada, mas quero um monossílabo que soe um pouco como ‘gene'”. DAWKINS, Richard. O Gene Egoísta.

Mas o que exatamente define um meme?

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Wil Fulton, da Thrillist, com a ajuda de Limor Shifman, autora de Memes in the Digital Culture, e de Elliot Tebele, dono da famosa conta no Instagram reprodutora de memes FuckJerry, compilaram uma lista das principais características que formam um meme. Elas seriam:

  • Mensagem: É necessário ter uma mensagem ou referência central claramente definida a ser entendida, e que seja empática, uma experiência ou conhecimento compartilhado por todos. O meio da mensagem não precisa ser necessariamente uma imagem associada a um texto; pode não ser nenhum deles, ou os dois. Também pode ser vídeo, ou apenas áudio.
  • Evolução: O meme não pode permanecer estático, fixo. Ele precisa ser adotado, remixado, alterado por uma comunidade de pessoas que passaram a usá-lo.
  • Maleabilidade: Deve auxiliar na sua própria evolução por ter características definidas que podem ser alteradas enquanto mantêm e preservam alguma similaridade com a mensagem original.
  • Efeito: É necessário que atinja um nível considerável de popularidade e entendimento, ou a mensagem não vai importar. Talvez a parte mais importante de um meme seja sua capacidade de ser viral.

(Tradução livre. Texto original em https://www.thrillist.com/entertainment/nation/first-meme-ever Acessado em 10/03/2019)

Como o primeiro meme surgiu?

É difícil achar uma data oficial do primeiro meme, mas o mais antigo encontrado que se encaixa no conceito e utilização atual do meme é uma charge de 1921 que saiu na revista Judge Magazine.

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O meme acima apresenta o conhecido conceito de Expectativa vs Realidade, que se tornou ainda mais comum na internet após o filme 500 Dias Com Ela (2009), do diretor Marc Webb. Segundo Beckett Mufson, do Vice, esse formato pode ter nascido na revista Wisconsin Octopus, uma revista de universitários similar à The Judge, de 1919 ou 1920 (https://www.vice.com/en_us/article/mbxkwy/meme-1921-expectation-vs-reality-judge-magazine-comic-twitter, acessado em 10/03/2019).

Como o meme reflete a comunicação atual?

Esse modo de se comunicar através de memes reflete perfeitamente o conceito de que a comunicação humana é um processo artificial. Através de artifícios culturais, tecnológicos e sócio-políticos, a sociedade cria novas formas de se comunicar e de interpretar a realidade em que vive. Segundo Vilém Flusser, a comunicação humana tem a tendência de sempre criar novos significados e, assim, acumular informações. O meme é um retrato de que a comunicação humana tende sempre ao lado interpretativo, principalmente considerando a evolução cultural e tecnológica da sociedade.

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A Polegarzinha, de Michel Serres, retrata bem como a geração mais nova “pensa” com a ponta dos dedos, mexendo no celular. Essa forma de pensar com apoio externo pode se relacionar com a forma com que os memes são usados pelos jovens.

“Nossa inteligência saiu da cabeça ossuda e neuronal. Entre nossas mãos, a caixa-computador contém e põe de fato em funcionamento o que antigamente chamávamos nossas ‘faculdades’: uma memória mil vezes mais poderosa do que a nossa; uma imaginação equipada com milhões de ícones; um raciocínio, também, já que programas podem resolver cem problemas que não resolveríamos sozinhos. Nossa cabeça foi lançada à nossa frente, nessa caixa cognitiva objetivada.” Serres, Michel. A Polegarzinha. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

A utilização dos memes hoje em dia é uma forma dos jovens de “digerir” o que acontece no mundo, procurando formas de trazer aquelas situações para sua vida, relacionando grandes eventos mundiais ou coisas ditas por celebridades com situações do dia a dia.

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Graças a grande quantidade de reprodução dos memes em situações diferentes, sua vida útil é extremamente reduzida, pois fica “saturado”, o que normalmente acontece quando pessoas de grupos sociais diferentes do que originou o meme passam a usá-lo.

O meme também serve como moeda de troca, um símbolo de uma pessoa atualizada e cheia de referências. O tipo de meme que você usa e a situação em que você o utiliza podem passar várias informações sobre você, como gostos pessoais, idade, posicionamento político e orientação sexual.

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