Ninguém: | Blogueiras: ah pq o algoritmo

Como já foi discutido nos textos anteriores, a cultura do algoritmo influencia diversas esferas do campo social. A privacidade, redes e a produção de conteúdo são áreas que se reinventam e atualizam diante dessa nova estrutura.

André Lemos, em Cibercultura como território recombinante (2006), aponta como se dão as novas relações comunicacionais na produção de informação. “Qualquer indivíduo pode produzir e publicar informação em tempo real, sob diversos formatos e modulações, adicionar e colaborar em rede com outros, reconfigurando a indústria cultural (“massiva”)”.

Se nesse princípio a cibercultura apontava a obtenção de informação com a ideia de uma curadoria própria do indivíduo entre mídias, no qual já existia o algoritmo, hoje, que a atuação do algoritmo se dá de forma mais integrada – possibilitada pela ampla coleta de dados – o algoritmo desponta como curador da informação.

É um momento de abundância informativa que nos leva a refletir sobre o conhecimento, sobre a formação do pensamento crítico. O especialista Neal Gabler (2011) afirma que “os indivíduos se tornaram grandes acumuladores de fatos e informações, mas já não conseguem desenvolver um pensamento crítico e profundo sobre um fato”.

E onde os memes ficam no meio de tudo isso?

O meme, texto que opera nesse espaço virtual, carrega um pacote de informações que dialogam com o viral e o atual. Qualquer um pode produzir um meme, é a liberação do polo do emissor e do canal, qualquer um produz e qualquer um posta. O poder do meme enquanto canal informativo e comunicador já é um consenso, até mesmo institucionalizado, como foi o exemplo do texto anterior, o “departameme”.

A questão é que o algoritmo curador atua no espaço da conexão, André Lemos (2006) afirma “Não basta emitir sem conectar, compartilhar […] É preciso emitir em rede, entrar em conexão com outros, produzir sinergias, trocar pedaços de informação, circular, distribuir”. Para ele essa lógica se enquadra em uma nova economia política “produção é liberação da emissão, e consumo é conexão, circulação, distribuição”. É o engajamento que gera dinheiro.

Então é o algoritmo curador – em suas diferentes plataformas – com a  ação na circulação do conteúdo que interfere no campo da produção; uma vez que é o atual e o viral que pautam e agendam as novas produções. Essa performance afeta diretamente o campo jornalístico, visto que se enquadra na sua lógica de trabalho, muito além, atinge o comunicador, que nesse contexto se mistura com qualquer um que tem um dispositivo tecnológico, faz um meme, e posta.

Social Chain é uma empresa britânica, agência global de marketing de redes sociais. O grupo começou com uma equipe de seis pessoas. Conhecidos como ‘fábrica de memes’, o serviço que eles oferecem é melhorar a imagem das marcas entre a geração digital, utilizando a linguagem deles, e a lógica de uso desse espaço virtual. Antes eles eram influenciadores solitários, produziam memes, e ainda era um serviço sem retorno financeiro. Se uniram através de um olheiro digital que convenceu investidores para o negócio demonstrando a influência deles, ao compartilhar um conteúdo com a mesma hashtag, em pouco tempo o assunto era o mais comentado nas redes. Hoje com duzentos funcionários, a empresa fatura em média 9 milhões de libras anualmente.

É a nova lógica da produção de conteúdo: entendimento da performatividade algorítmica e suas nuances de curadoria, a linguagem dos usuários – a linguagem da polegarzinha é meme?-, propaganda direcionada, possibilitada pela profunda coleta e análise de dados.

No Brasil um coletivo de produção de memes tem ganhado relevância no cenário midiático, é o Saquinho de Lixo. O grupo composto por nove pessoas atua numa lógica de produção específica. Produzem os memes, discutem em um grupo de Whatsapp seu possível sucesso viral e depois o postam em seu perfil do Instagram. Com 360 mil seguidores a magnitude de expressão dos seus memes alcançou outros espaços ao ser incorporado a exposição ‘À Nordeste’ no Sesc São Paulo neste ano.

Como os exemplos comprovam, os memes se incorporam a nova lógica de produção de conteúdo que tem como grande ator o algoritmo. No campo da produção de notícias o pesquisador Carlos Frederico de Brito d’Andrea no trabalho Em busca das redes sociotécnicas na redação de notícias por robôs (2017), aponta que já existem notícias sendo produzidas por repórteres-robôs – algoritmos, bancos de dados, computadores-.

Agora que os memes ocupam um espaço de relevância nas discussões atuais, seja na formação ou difusão de discursos e ideias pessoais, e até mesmo na comunicação estratégica institucional, será que há projetos para o desenvolvimento automatizado de memes? Seria algo do futuro a criação de algoritmos que interagem com o algoritmo das plataformas, entendendo os assuntos virais, relacionando-os com a intenção desejada – deboche, convencimento, propaganda? Será que esses memes já circulam entre nós e não sabemos? Mais informações link na bio.

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