Memes, nunca te critiquei: é verdade esse bilete

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Até pouco tempo atrás, a comunicação de grande alcance só podia ser exercida pelas grandes mídias, que atingiam de modo quase homogêneo o público a que se voltava. Televisão, rádio, jornal, cinema. Uma comunicação feita por poucos para muitos, de modo praticamente unilateral.

O advento da internet fez com que o receptor assumisse também o papel de emissor e passasse a compartilhar ideias, opiniões, satisfações e pensamentos em proporções mundiais, talvez universais. Com a configuração em redes, os novos modos de comunicação que surgiram foram naturalmente ganhando seu espaço e se estabelecendo como mentalidade social. É o caso dos memes.

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Em “Cibercultura como território recombinante”, André Lemos define bem a cultura digital ao estabelecer três princípios básicos de sua formatação: a liberação do polo de emissão, o princípio de conexão em rede e a reconfiguração sociocultural a partir de novas práticas produtivas e recombinantes. O primeiro princípio expõe o caráter libertador da internet no que tange a expansão dos agentes emissores de informação. Caráter esse que remete ao intuito inicial da internet de ser um espaço livre e democrático de compartilhamento de informações.

A segunda lei foi discorrida no segundo texto do blog: “Só observando esses memes que você copia do Twitter e joga no Facebook”, que fala sobre a forma como os memes atuam nas diferentes redes interconectadas. Já a terceira lei indica perfeitamente a capacidade dos memes de agir de modo alternativo aos diferentes momentos sociais, cultura de origem e ideologias de criação.

Segundo Pierre Lévy, “o virtual é o que existe em potência e não em ato”, é o que se atualiza a todo momento e está sempre sujeito a transformações. Essa é uma das principais características dos memes: a capacidade infinita de adaptações, releituras e reconfigurações. De acordo com as diferentes situações, os memes servem como formas de expressão maleáveis, expostas a modificações em sua estrutura ou em suas linhas ideológicas. Eles recebem novas informações e vão evoluindo de modo ostensivo, se expandindo pelo mundo e ganhando novas configurações.

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Porém, como forças comunicacionais virtuais, ao mesmo tempo em que rompem com estruturas dominantes, os memes também acabam fazendo a manutenção de bases conservadoras e de conceitos contraproducentes. Isso ocorre porque sua forte característica de reprodução e compartilhamento esbarra na formatação de bolhas de conteúdo. Desse modo, as ideologias que estão por trás dos memes são por vezes apenas confirmadas e não confrontadas por novas ideias.

Um dos principais responsáveis por essa limitação são os algoritmos das redes sociais, que estabelecem o que o usuário verá na plataforma de acordo com os interesses demonstrados pelo próprio. Se a pessoa curte postagens sobre veganismo, é quase impossível que um meme que vá contra algum aspecto desse modo de vida apareça para ela. Assim, o caráter livre, multilateral e democrático da rede começa a ser reduzido pelo controle de dados e a capacidade de comunicação aberta, questionadora e construtiva vai perdendo força.

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Com isso, se faz necessário criar linhas de fuga, ou desterritorializar. Para Deleuze, a territorialização é o estabelecimento de elementos de controle, portanto desterritorializar consiste em modos de contornar esse domínio. Mas como criar essas linhas de fuga para o mundo virtual?

Por possuir algoritmos, vigilância e controle, o virtual se configura como um território. De acordo com  André Lemos, um território recombinante. Toda cultura é uma combinação e recombinação de diferentes elementos, a cultura digital não é diferente. O meme é um formato de comunicação composto de diferentes fundamentos, que elenca informações generalizadas, acontecimentos atuais, referências históricas, sociais e culturais com a liberdade de expressão de cada um. André Lemos fala que a diferença entre a recombinação da cultura digital para a recombinação de outras culturas é “a forma, a velocidade e o alcance global desse movimento”.

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É isso que faz a força dos memes praticamente imparável. Mesmo com o controle de dados, a velocidade, o alcance e o formato extraordinariamente maleável fazem com que os memes tenham quase a desenvoltura de um líquido, ao se adaptar a quaisquer circunstâncias e driblar inúmeros obstáculos. Os memes são de certo modo mais uma resistência à tentativa de imperializar a internet do que uma ferramenta de estruturas opressoras. Eles saem de qualquer lugar, podem ser feitos por qualquer pessoa, conter qualquer mensagem e ser compartilhados em quaisquer plataformas.

Sempre vai haver forças para criar barreiras, limites e controle nas redes, mas a internet fornece, por natureza, os meios necessários para driblar o controle massivo e exercer até certo ponto a comunicação democrática e multilateral. Os memes estão aí para isso.

 

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